|
MIKLOS FEHÉR
Momentos após receber o cartão amarelo do juiz, surgiu uma forte sensação de tontura e um mal estar geral, acompanhado por uma vista turva. A primeira ação é abaixar a cabeça para se equilibrar melhor, mas logo em seguida o corpo fica mole, se perde toda a consciência e o contato com o mundo externo é desligado. É o mesmo que entrar num sono profundo. Esses foram os últimos segundos de Miklos Fehér, 24 anos, jogador profissional de futebol e vítima de morte súbita.
Numa interpretação médica e científica, Miklos já apresentava alterações do ritmo cardíaco. É provável que apresentava extra sístoles ventriculares ou até fibrilação atrial. Nos dois casos é impossível afirmar isso pós-morte e dificilmente os exames em vivo serão publicados. Em ambas as situações, o débito de sangue, que leva nutrientes ao organismo, é reduzido. Durante e após grandes esforços físicos, nosso metabolismo se altera e as inocentes extra sístoles se tornam um verdadeiro perigo, a ponto de fazer o coração bater em taquicardia ventricular, isso quer dizer, em alta freqüência por minuto, porém, sem conseguir bombear sangue suficiente para o cérebro e o organismo. Miklos sofreu uma fibrilação ventricular, perdeu a consciência e sofreu morte cerebral.
Baseando-se no relatório da autópsia que diz que não houve enfarte do coração, nem havia anomalias congênitas ou sinais de ruptura de aneurisma cerebral, o grande azar de Miklos não foi as arritmias, mas sim um atendimento médico precário e despreparado. Nestas situações, umas ampolas de adrenalina injetadas diretamente no sangue ou até no próprio coração e a aplicação de um choque elétrico no tórax, teriam mudado o destino de Miklos. Umas ampolas de adrenalina custam menos de 20 Reais, um equipamento portátil de choque elétrico pode ser encontrado por até 3000 reais e o treinamento de profissionais levaria no máximo algumas horas. O grande paradoxo é o profissionalismo do show e o amadorismo dos indivíduos.
O destino de nossas vidas nem sempre está em nossas mãos. Às vezes ele é determinado pelas pessoas que nos circundam. Como disse Nabil Ghorayeb, importante cardiologista dos esportes: "Todos nós somos um pouco cúmplices. Exigir que o estatuto do torcedor seja cumprido imediatamente no item emergência, tanto para o atleta e como para os torcedores. Exigir medidas definitivas é o que precisamos."
Aprender com a tragédia talvez seja o maior tributo que o Futebol possa fazer para o Miklos.
Dr.Rogério Neves
crm 55931
Coordenador do Setor de Medicina Esportiva e
Fisiologia do Exercício do Pão de Açúcar Club
rogério.neves@paodeacucar.com.br
Fone: 11 3886-3032 / 9982-6372
DICAS ANTERIORES
|